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A Elegância de um palhaço
É com enorme satisfação e carinho que rabisco aqui estas linhas, para que possamos fazer uma minúscula pausa no acelerado dos nossos dias e ajustar o olhar, alinhando-o ao que nos propõe o coração. Que essas sutis paradas sirvam, por um bom tempo, para abastecer nossa emoção de um combustível mais fino.
Assistindo ao documentário Eu sou um grande mentiroso, recentemente lançado em DVD como bônus do belíssimo filme Os palhaços, de Fellini, deparamos com falas da maior importância para quem trafega pelo mundo do palhaço, sempre levado a refletir sobre noções como as de “improvisação” e de “disponibilidade”. Fellini não está especificamente preocupado com a questão do palhaço, mas a da arte. Vejamos, por exemplo, qual a sua visão sobre improvisação:
“Não acho que a palavra improvisação tenha algum lugar no processo criativo. É uma palavra totalmente inadequada e até mesmo irritante. Eu não usaria a palavra “improvisação”, eu usaria outro termo. Eu diria que o problema é ficar acessível, se tornar alguém acessível para a coisa que está nascendo e que ainda não tem forma e ainda está confusa e indefinida”.
Essa noção, que valoriza um estar “acessível”, realmente parece muito mais precisa do que o ato de improvisar, o qual, em certos momentos, pode não passar de virtuosismo. Já quando estamos acessíveis, abertos, permeáveis, criamos o espaço para que algo se faça em nós, através de nós. Vejam a cena sugerida de Marcelo Mastroianni “dançando” em Noites Brancas de Lucchino Visconti; temos uma mostra clara de alguém que dava conta muitíssimo bem do que defendia Fellini, do que fosse estar “acessível”. Dizem que Mastroianni foi Fellini sem se parecer com ele. Transcrevo aqui o depoimento de um dos produtores que aparecem no documentário:
“Fellini não conta a verdade. Assim ele surpreende os atores. Por isso Mastroianni foi o maior ator felliniano. Ele é o único que não ligava. Não fazia perguntas. Chegava de manhã sempre cansado e dormia entre as filmagens. Ele (Fellini) dizia: “Vá até aquela porta”. Ele (Mastroianni) ia até a porta. Os outros (atores), ingleses e americanos perguntavam: “Vou até a porta para abri-la?”. Ao que ele respondia: “Não se preocupe com isso”.
Quando assistimos a esta cena, temos a nítida impressão de um momento mágico, único, como que gravado de uma só tomada, uma abertura total do ator, pleno de espontaneidade, de vitalidade como quer mais uma vez Fellini:
“Acho que para um artista ou um autor, ser excessivamente consciente do próprio processo criativo não é benéfico. Um conhecimento excessivo de seu processo me parece um obstáculo negativo que pode interromper a energia vital e indispensável que é chamada de espontaneidade. A espontaneidade é o segredo da vida. De fato, o único critério estético que eu acho que é válido para julgar uma obra de arte não é tanto se é bonita ou feia de acordo com certos parâmetros estéticos estabelecidos durante os séculos ou de acordo com pontos de vista culturais, mas se a obra tem vitalidade.”
Embora a cena selecionada não seja de um filme de Fellini, serve para confirmar porque o mestre italiano, que foi tão apaixonado pelo circo e pelos palhaços, resolveu escolher Mastroianni como seu alter ego. Mastroianni, um palhaço disfarçado, comovente, digno, total na sua entrega, elegante até no jeito de cair.
Marcelo Gomes, payaso Capitão
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